Métricas de Disponibilidade
Visão Geral
"99,9% de disponibilidade" é a forma padrão de expressar confiabilidade, e ela esconde mais do que revela.
Ela não diz se foram 43 minutos contínuos ou 43 interrupções de um minuto. Não diz se atingiu todos os usuários ou 2%. Não diz se foi no pico ou de madrugada.
Essas distinções importam mais que o número, e é por isso que a disponibilidade agregada precisa vir acompanhada de outras medidas.
Problema
A porcentagem é atraente porque comunica facilmente. E ela agrega três dimensões distintas num único número:
Frequência. Quantas vezes falhou.
Duração. Quanto tempo cada falha durou.
Alcance. Quantos usuários foram afetados.
Dois sistemas com a mesma porcentagem podem ter experiências opostas: um com uma interrupção longa e outro com dezenas de curtas. O primeiro é um incidente; o segundo é um produto que ninguém confia.
Conceitos Centrais
As três medidas que decompõem
tempo médio entre falhas frequência — com que intervalo falha
tempo médio de detecção quanto tempo até alguém saber
tempo médio de recuperação quanto tempo até voltar
A soma das duas últimas é a duração da indisponibilidade. E a decomposição orienta o investimento:
falha frequente, recuperação rápida → investir em causa raiz
falha rara, recuperação lenta → investir em recuperação e procedimento
detecção lenta → investir em observabilidade
O tempo de detecção é o mais negligenciado e frequentemente o maior componente: um incidente descoberto por um cliente, e não pelo monitoramento, já consumiu boa parte da duração antes de alguém agir.
Reduzir a duração costuma render mais que reduzir a frequência
Contraintuitivo e prático.
Eliminar causas de falha tem retorno decrescente: as fáceis já foram, e as restantes são cada vez mais raras e mais caras de prevenir.
Reduzir o tempo de recuperação tem retorno constante: ele se aplica a todas as falhas, inclusive as que você não previu.
falha a cada 30 dias, 60 min de recuperação → 99,86%
falha a cada 30 dias, 6 min de recuperação → 99,986%
Uma ordem de grandeza, sem eliminar nenhuma falha. Reversão rápida, failover exercitado, procedimentos ensaiados e detecção automática são o que produzem isso.
A média esconde a distribuição
Tempo médio de recuperação de 15 minutos pode ser dez incidentes de 4,5 minutos e um de 2 horas.
O incidente de 2 horas é o que o cliente lembra, e a média não o representa.
A prática melhor: acompanhar a distribuição — mediana, percentil 90, e o pior caso do período. E, para incidentes, o número absoluto costuma dizer mais que qualquer média, porque a amostra é pequena.
Disponibilidade por tempo e por requisição diferem
por tempo proporção do período em que o serviço estava disponível
por requisição proporção de requisições atendidas com sucesso
Uma indisponibilidade de 10 minutos de madrugada e outra de 10 minutos no pico contam igual na primeira, e muito diferente na segunda.
A medida por requisição reflete melhor o impacto no usuário, e é a forma usada em SLI. A medida por tempo é mais comum em contratos, porque é mais fácil de verificar.
Saber qual está sendo usada muda a interpretação do número.
Disponibilidade parcial é o caso comum
O modelo binário — disponível ou não — não descreve o que acontece na prática.
O comum é: uma funcionalidade fora, o resto funcionando; lentidão que torna o uso inviável sem gerar erro; um subconjunto de usuários afetado.
Ver degradação graciosa. Medir apenas indisponibilidade total esconde a maior parte do impacto real.
A saída é medir por jornada, com limiar de latência — o que transforma "está no ar" em "está utilizável".
O número precisa de contexto para significar algo
Três informações que precisam acompanhar qualquer porcentagem:
A janela. 99,9% ao mês e ao ano são compromissos muito diferentes.
O ponto de medição. Servidor, borda ou cliente. Ver SLI.
O que conta como indisponível. Erro total, lentidão, degradação parcial.
Sem as três, a porcentagem não é comparável nem verificável — e é assim que ela aparece na maioria dos relatórios.
O número mais útil não é a disponibilidade
Uma medida que combina as três dimensões e comunica melhor ao negócio:
minutos de usuário afetados = usuários afetados × duração em minutos
Ela distingue o que a porcentagem não distingue: dez minutos afetando 2% dos usuários de madrugada, e dez minutos afetando todos no pico.
E ela é diretamente traduzível em impacto — número de pessoas que não conseguiram fazer o que precisavam, e por quanto tempo.
O custo é que ela exige saber quantos usuários foram afetados, o que nem sempre é simples em degradações parciais. A estimativa costuma bastar: a ordem de grandeza já separa os incidentes que importam dos que não importam.
Times que adotam essa medida param de discutir se um incidente foi grave — o número responde.
Modelo Mental
A porcentagem agrega frequência, duração e alcance. Para agir, você precisa dos três separados.
Quando Usar
- Para acompanhar tendência ao longo do tempo.
- Como base para SLO e SLA.
- Para comparar componentes e priorizar investimento.
- Em comunicação com o negócio.
Quando Não Usar
A porcentagem sozinha.
Média de recuperação sem a distribuição.
Disponibilidade por tempo quando o impacto no usuário importa.
Modelo binário em sistemas que degradam parcialmente.
Sem declarar janela, ponto de medição e definição.
Comparando números de fontes diferentes. Definições distintas produzem números incomparáveis.
Alternativas
- SLI por jornada — mede a experiência, não o tempo de atividade.
- Minutos de usuário afetados — combina alcance e duração numa medida que o negócio entende.
- Contagem de incidentes por severidade — mais legível que média em amostras pequenas.
- Distribuição de duração — em vez de média.
A segunda merece destaque: minutos de usuário afetados captura as três dimensões e é diretamente traduzível em impacto.
Trade-offs
| Por tempo | Por requisição |
|---|---|
| Simples de verificar | Reflete o impacto |
| Ignora volume | Pondera pelo uso |
| Comum em contratos | Comum em SLO |
| Média | Distribuição |
|---|---|
| Um número | Vários |
| Esconde o pior caso | Revela |
| Fácil de comunicar | Exige contexto |
Modos de Falha
Número sem contexto. Incomparável.
Média escondendo o pior incidente.
Medição no servidor. Não vê o que não chegou.
Degradação parcial não contada.
Detecção lenta inflando a duração sem que ninguém acompanhe esse componente.
Manutenção programada excluída sem limite, esvaziando o número.
Erros Comuns
Usar só a porcentagem. 99,9% ao mês pode ser uma parada de 43 minutos ou quarenta e três paradas de um minuto — impactos muito diferentes com o mesmo número.
Não separar detecção de recuperação. São problemas distintos com soluções distintas: uma se ataca com monitoramento, a outra com automação. O tempo total não diz em qual investir.
Investir em frequência quando a duração é o problema. Reduzir o número de incidentes e reduzir a duração de cada um exigem trabalhos diferentes. Sem separar as métricas, o investimento vai para o lado errado.
Não medir degradação parcial. Disponibilidade binária conta como sucesso o sistema que responde em 30 segundos — que, para o usuário, está fora do ar.
Comparar números de definições diferentes. "Disponível" medido na borda, no balanceador ou pelo usuário final dá resultados distintos. Comparar sem igualar a definição não significa nada.
Não acompanhar o pior caso. A média entre clientes esconde o cliente que teve seis horas fora — e é ele que cancela o contrato.
Exemplo Real
Uma plataforma de logística reportava 99,92% de disponibilidade mensal e recebia reclamações constantes de instabilidade.
A decomposição explicou a contradição:
incidentes no mês 14
duração média 2,5 minutos
duração total 35 minutos
tempo médio de detecção 1,8 minuto
tempo médio de recuperação 0,7 minuto
O número era excelente e a experiência era ruim: quatorze interrupções por mês, quase uma a cada dois dias.
E a análise por horário mostrou concentração: onze dos quatorze aconteciam entre 8h e 10h — o horário de maior uso pelos clientes.
Duas mudanças na medição:
Disponibilidade por requisição, em vez de por tempo. O número caiu para 99,4% — porque as interrupções aconteciam quando havia tráfego.
Minutos de usuário afetados como métrica principal, comunicada ao negócio. Ela tornou visível o que a porcentagem escondia.
E a investigação da causa das quatorze interrupções encontrou uma raiz única: o processo de implantação reiniciava instâncias sem desligamento gracioso, e as implantações aconteciam de manhã.
Duas correções resolveram treze dos quatorze:
Desligamento gracioso, com a instância saindo do balanceamento antes de encerrar.
Implantação fora do horário de pico, e depois implantação gradual sem parada.
A conclusão registrada: eles tinham investido meses tentando reduzir a duração dos incidentes — que já era de 2,5 minutos. O problema era a frequência, e a decomposição levou uma tarde para revelar isso.
Conceitos Relacionados
- SLI — a forma que mede experiência.
- SLO — o alvo.
- Disponibilidade — a composição.
- Fundamentos de Confiabilidade.
Exercício Prático
Pegue os incidentes do último trimestre e separe, para cada um: tempo até detectar, tempo até recuperar, e fração de usuários afetados.
A soma das colunas diz onde investir — e a coluna de detecção costuma ser a maior.
Perguntas de Entrevista
- O que a porcentagem de disponibilidade esconde?
- Por que reduzir duração costuma render mais que reduzir frequência?
- Qual a diferença entre disponibilidade por tempo e por requisição?
Para Aprofundar
- Beyer, Betsy et al. Site Reliability Engineering. O'Reilly, 2016 — capítulos 3 e 4.
- Forsgren, Nicole et al. Accelerate. IT Revolution, 2018 — tempo de recuperação como indicador.
- Allspaw, John. MTTR is more important than MTBF, 2010.